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4 anos depois: Bolsonarista é condenado por divulgar fake news contra bancária sobre facada em Bolsonaro

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bancária

Imagine acordar de uma soneca em uma quinta-feira à tarde e descobrir que está implicada em um crime de relevância internacional. Esse enredo cinematográfico foi enfrentado por Lívia Gomes Terra - uma bancária mineira - durante as últimas eleições que ocorreram no Brasil em 2018; o desfecho dessa história ocorreu em maio deste ano.

Na época, Lívia Gomes Terra foi confundida - não se sabe se intencionalmente - por militantes bolsonaristas com uma mulher que estava próxima a Bolsonaro quando este sofreu um atentado à faca em 6 setembro de 2018. Desde então sua vida se tornou um inferno: suas fotos e informações pessoais passaram a ser compartilhadas em grupos de apoio a Bolsonaro e, como consequência, Lívia passou a receber uma avalanche de ódio pelas suas redes sociais.

"Quase quatro anos para conseguir justiça é muito tempo. Mas por outro lado, para o momento que vivemos, essa sentença veio em boa hora. Ela serve de exemplo, é educativa. Estamos imersos em um processo eleitoral que tende a ser violento, com muitas acusações. Essa sentença vem mostrar que a internet não é uma terra sem lei, é preciso que as pessoas tenham responsabilidade com o que dizem e contra quem dizem", afirma Lívia.

Como tudo aconteceu

*José (nome fictício), um apoiador do então candidato à presidência, estava no Rio de Janeiro quando a facada ocorreu em Juiz de Fora. Porém, achou que tinha mais competência que a Polícia Federal - que começou a investigar o crime no segundo após sua ocorrência - e começou a investigar em vídeos e imagens da internet o que tinha acontecido. Daí para criar uma teoria em que uma mulher que estava ao lado de Adélio Bispo - autor da facada - era cúmplice dele foi um pulo. E teve mais: José "encontrou" a identidade de tal mulher nas redes sociais.

Só que a mulher ao lado de Adélio não o ajudou a cometer o crime. Ao contrário, ela era na verdade uma militante bolsonarista que sorria olhando uma foto que tinha tirado com Bolsonaro segundos antes, sem se dar conta do crime que ocorria ao seu lado.

Mas já era tarde. Analisando um par de óculos escuros de uma marca muito popular e a cor do cabelo da mulher, José se dedicou a procurar qual seria a identidade daquela pessoa. E se deparou com a foto de Lívia nas suas redes sociais. A bancária conta que a foto mais divulgada era dela falando em um microfone em uma manifestação em defesa da Caixa, banco em que trabalha. Assim, José, por conta própria, atribuiu a coautoria do atentado a Bolsonaro à Lívia, resolvendo assim divulgar sua imagem e impressões nas redes.

Conforme conta Lívia, da primeira postagem em diante, a situação degringolou com uma velocidade impressionante. Seu nome, sua profissão, seu cargo de dirigente sindical e sua filiação política foram compartilhadas rapidamente. E as ameaças começaram a chegar com a mesma ligeireza.

Além das ameaças digitais, Lívia foi implicada na investigação da Polícia Federal sobre a facada contra Bolsonaro.

O motivo

Lívia conta que antes do inquérito, não conhecia José. Ela morava em Juiz de Fora, Minas Gerais; e José no Rio de Janeiro, apesar de ser natural de um estado do Sul do Brasil. Ela acredita que sua militância política foi uma questão fundamental nessa "coincidência".

"Eles (militantes bolsonaristas) queriam associar a minha imagem ao crime naquele momento porque sou sindicalista e militante política. Naquele momento inclusive, aventaram a possibilidade do Sindicato dos Bancários de Juiz de Fora estar pagando os advogados do Adélio Bispo", relembra a bancária.

Quatro anos de medo

"As ameaças que recebi foram mais por meio do aplicativo de mensagens do Facebook. Por sorte, meu celular não foi tão divulgado nos grupos bolsonaristas", afirma Lívia. Porém, mesmo sem o seu celular, a bancária passou por um imenso sofrimento e muitos transtornos. "Havia mensagens vindas do Brasil inteiro de militantes bolsonaristas me ameaçando". Ela ainda relembra a intensidade dos ataques: "A gente sabe que as pessoas estão distantes, mas chega na gente com uma agressividade tamanha que eu não consigo descrever", relata.

Além das mensagens de ódio, Lívia ainda passou por transtornos importantes na sua rotina: "Eu tive que ir a Brasília e precisei de um esquema de segurança especial para cumprir atividades comuns da minha vida", disse. Além disso, relembra o medo das ameaças se concretizarem: "Colocaram em risco meus pais, que vivem em uma pequena cidade de três mil habitantes. Também ameaçaram colocar uma bomba na Fetraf Belo Horizonte porque eles não passaram meu contato para militantes bolsonaristas que ligaram exigindo que o fizessem".

Porém, o medo mais recorrente da bancária era outro: "Em tempos de distopia, todas às vezes que tocavam nesse assunto, eu era apossada por um medo irracional de virar um bode expiatório dessa situação". "A sensação que eu tenho é que processar o responsável por isso era menos acusar alguém, e mais ter uma prova da inocência. Essa sentença é prova de que fui vítima de uma grande calúnia", comemora a vítima.

O processo

Foram muitas as mensagens de ódio recebidas por Lívia e também por outras mulheres "confundidas" com a militante bolsonarista que estava ao lado de Adélio no episódio. Porém, apesar do apoio que recebeu, Lívia processou apenas José, o primeiro a compartilhar a calúnia a seu respeito. " A Justiça não é acessível a todos", lamenta a bancária.

Alias, Lívia relembra que ao longo desses quatro anos que separam o processo da condenação de José, a lei se modificou: "Quando entrei com esse processo, a lei era uma: calúnia e difamação com agravante de ter sido feita em meio de alta propagação. Hoje há uma nova lei que penaliza melhor esse tipo de conduta. Com a Lei de combate a fake news a pena dela seria maior".

Ainda assim, o valor financeiro e o desgaste emocional para a abertura de um processo o tornam menos acessível. "Outras mulheres também foram vítimas do que fui. Elas não tiveram a mesma oportunidade que eu de buscar uma reparação na Justiça. Eu de fato gostaria de dividir com elas essa minha vitória, porque o que eu passei eu sei que elas passaram também, e talvez com elas tenha sido pior porque eu estava amparada e elas eu não sei", fala a bancária.

José foi condenado a dez meses e vinte dias de prisão, que irão se converter em trabalho comunitário.