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37º Conecef: Há uma tentativa de culpabilizar o trabalhador por doenças ocupacionais, diz pesquisadora Maria Maeno

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Imagem do site Recontaai.com.br

A Covid-19 é mais um capítulo da história do adoecimento dos bancários. Essa é uma das conclusões possíveis após ouvir a médica do trabalho Dra. Maria Maeno no 37º Congresso Nacional dos Empregados da Caixa Econômica Federal (Conecef).

Doutora pela Faculdade de Medicina da USP, o trabalho que Maeno desenvolve desde 1987 deu origem ao Centro de Referência em Saúde do Trabalhador do Estado de São Paulo. Atualmente, ela se dedica a função de pesquisadora da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho, atualmente do Ministério da Economia.

Em sua fala, Maeno retomou a luta dos bancários pela saúde. "Tradicionalmente há uma tentativa de culpabilizar o trabalhador por acidentes e doenças decorrentes do trabalho”, afirmou a médica. Contudo, o caminho deve ser o inverso: "O que poderia ser diferente no trabalho para que o acidente não ocorra?", questiona.

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As principais causas de doenças laborais entre os bancários

De acordo com uma pesquisa e a vivência da médica, as primeiras queixas dos bancários eram as dores no punho, cotovelos e ombros. Nesse sentido, ela explica que essas dores se tornavam crônicas, diminuindo a capacidade de trabalho e a qualidade de vida dos bancários. Enquanto isso, relembra, o setor patronal seguia culpabilizando os doentes, individualizando os casos e atribuindo a má realização da função como causa do adoecimento.

Maeno afirma que essa versão começou a ser rechaçada pelos sindicatos, que buscaram evidências que mostravam que aquelas dores incapacitantes tinham uma raiz de ordem coletiva: as condições de trabalho. Por meio da luta sindical, os trabalhadores conseguiram que tanto o Ministério da Saúde, quanto a Previdência Social, reconhecessem as lesões por esforços repetitivos como doença ocupacional.

 "Aquele ritmo de trabalho e as metas estavam ligados aos adoecimentos. E as exigências eram cada vez maiores" aponta a médica e pesquisadora.

Depressão, alcoolismo e outras doenças psiquiátricas passam a rivalizar com as lesões músculo-esquelétricas

Com a diminuição dos empregados de instituições financeiras, a sobrecarga para os que ficaram tornou-se um problema sério. Somando o sobretrabalho ao sistema de metas, o adoecimento mental da categoria disparou. No mesmo sentido a tecnologia, anunciada como um facilitador do trabalho, passou a ser mais um peso para os trabalhadores.

 Dessa forma, Maeno introduz os desafios que bancárias e bancários passaram a enfrentar na década de 1990, quando os problemas de ordem psiquiátrica passaram a ganhar relevância entre os trabalhadores de bancos. Atualmente, a médica informou que grande parte dos afastamentos de bancários homologados pelo INSS tratam de depressão, síndrome do pânico, alcoolismo e ansiedade.

A chegada da pandemia e o trabalho dos empregados da Caixa

Os bancários e bancárias, sobretudo os da Caixa Econômica Federal, fazem parte do contingente de trabalhadores que não puderam ficar em casa. Ao contrário, foram fundamentais durante a pandemia, principalmente por causa do pagamento do auxílio emergencial.

Dessa forma, os empregados da Caixa, e de outros bancos, fizeram parte da linha de frente do combate aos efeitos da pandemia. E também fizeram parte dos que foram impactados pela gestão desastrosa do governo em relação à pandemia.

Maeno relembrou que esses trabalhadores estiveram expostos a condições terríveis no início do pagamento do auxílio nas agências bancárias. Aglomerações, falta de equipamentos de proteção e a falta de orientação dos bancos foram responsáveis por mais de uma centena de mortes somente na Caixa.

O momento foi dramático e ensejou uma pesquisa, que está em fase de elaboração, da qual a médica faz parte. Segundo ela, os dados auferidos correspondem às denúncias do movimento sindical. Resultados preliminares mostram que cerca de 25% dos bancários contraiu covid-19. E nenhum deles teve o reconhecimento da doença pelo INSS. Como consequência, esses bancários deixaram de ter acesso a direitos trabalhistas preconizados por lei.

O teletrabalho e home office

 Ainda na esteira das mudanças ocasionadas pela pandemia, Maeno se debruçou sobre o teletrabalho. Essa forma de trabalho foi adotada em algumas funções e, por não estar adequadamente regulamentada, pode acarretar prejuízos à saúde do trabalhador.

Prolongamento da jornada de trabalho, falta de espaço adequado e a falta de móveis ergonômicos podem ser fontes de mais adoecimento para os bancários, segundo a médica. Na outra ponta, as recomendações dos bancos para o correto desempenho da função não conseguem ser providenciadas pelos trabalhadores.

Maeno conclui que a as transformações nas organizações financeiras têm impacto na saúde dos trabalhadores e que é preciso mais uma vez da união dos trabalhadores para que essas mudanças venham acompanhadas do direito à saúde do trabalhador.