O economista norte-americano Joseph Stiglitz, contemplado pelo Nobel, afirmou que o futuro do mundo pós-pandemia do novo coronavírus não está definido e dependerá fundamentalmente das decisões políticas que serão tomadas agora.

“A pandemia tem o potencial de agravar muitos dos problemas de nossa sociedade. Mas também há o potencial de reestruturar a sociedade e a economia”, disse durante o 5º Encontro do Grupo de Puebla, realizado nesta sexta-feira (15), virtualmente.

Em sua opinião, os grupos progressistas “devem agarrar essa oportunidade” para “imprimir sua perspectiva nos pacotes de ajuda” que governos preparam e já colocam em prática.

Stiglitz aponta que muito países, incluindo os EUA, que realizou uma injeção inédita de dinheiro público na economia, têm utilizado mal os recursos financeiros. Além disso, ele vê riscos para a democracia por conta da pandemia: “Apesar do dinheiro investido, nós falhamos em cada um dos itens, dos objetivos. Isso é resultado de uma má política e má implementação. Em muitos países, demagogos estão usando a pandemia para tentar fortalecer seus projetos”.

Economia vs. Vida

O economista qualificou como “dilema falso” a oposição entre abertura das atividades econômicas e as ações sanitárias para a preservação da vida.

“A recuperação da economia não será possível antes de controlar a epidemia. As pessoas não voltarão a produzir e consumir enquanto houver esse nível de ansiedade. A coisa mais importante é proteger a saúde, os vulneráveis e a renda deles”, explicou.

No pós-pandemia, Stiglitz defendeu mudanças profundas. A começar pelo predomínio dos interesses de alguns setores: “Nós precisamos começar agora a planejar o próximo passo. Uma das razões para as coisas terem ido mal nos EUA é que nós não planejamos. O setor financeiro continua coletando juros [altos]. Isto é um problema para todos os países em desenvolvimento”.

Para ele, há o risco dos próximos anos se converterem em uma “década perdida”, como o período subsequente à Grande Depressão de 1929.

“A Economia não se recuperará em uma curva em V. Nós achamos que seria assim, mas todos sabemos agora que não será. Nós sabemos que será um U, só não sabemos quão fundo será o ponto mais baixo. Isso dependerá de que medidas adotarmos agora”, destacou.

Apesar das dificuldades dos países subdesenvolvidos, com menos recursos e populações de trabalhadores informais maiores, o economista avaliou que a capacidade política fez com que alguns tivessem respostas eficazes.

“Alguns países da América Latina formam melhores que os EUA. A Argentina é um exemplo”, defendeu.

Do ponto de vista internacional, Stiglitz defendeu que a pandemia impôs a necessidade de coordenação global na economia, além de postular que todos países em desenvolvimento pudessem realizar saques especiais do FMI sob condições mínimas.

“Esse é o momento em que ficou claro que o multilateralismo deve enfrentar a pandemia e a mudança climática, mas houve um recuo nesse sentido, e nós sabemos por qual razão: a ausência de liderança por conta omissão de Washington”, criticou.

Política

Citado pelo economista, Alberto Fernandez, presidente da Argentina, defendeu que em cada país, o primeiro passo para a recuperação é político, apontando a necessidade de derrotar governos e partidos conservadores.

“A direita conservadora sempre aposta em nossa divisão e não podemos dar essa facilidade a eles. Não podemos nos dar ao luxo de enfatizar nossas diferenças. Não podemos, por nosso egoísmo e narcisismo, nos distanciar e permitir que outros governem”, disse.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também participou da conferência, se dizendo “muito otimista”.

“Não podemos ser pessimistas. Temos que acreditar que dessa crise podemos tirar lições para fazer o enfrentamento do debate sobre o futuro”, afirmou.