Professor de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ricardo Antunes prevê um futuro ainda mais pessimista para as relações de trabalho no pós-pandemia. Por outro lado, vê os desafios futuros dos trabalhadores como uma possibilidade de salto de qualidade no movimento sindical.

Participando de um debate virtual da Central Única dos Trabalhadores (CUT) – Os desafios na organização dos trabalhadores de aplicativos -, promovido pela Secretaria Nacional de Organização e Relações de Trabalho da entidade, Antunes abordou seu principal tema de estudo há décadas: a precarização do trabalho.

Em sua explicação, o fenômeno que hoje é denominado como “uberização” tem alguns elementos formativos: a ideologia neoliberal, que promove a “destruição da legislação protetora“; a revolução tecnológica, “para o capital, não para a humanidade”; e a ofensiva dos mercados após a crise financeira de 2008.

“Um dos fundamentos é o pensamento mais regressivo que o capitalismo conseguiu criar, com exceção do nazi-fascismo, que é o neoliberalismo, que se sustenta na hegemonia do capital financeiro, que não tem nenhum coágulo de humanidade”, afirmou.

Na visão do sociólogo, o nível de precarização atual é apenas um “laboratório experimental” daquilo que se pode concretizar no mundo: “O trabalho, na lógica do capital financeiro, é custo e, nessa lógica, custo deve ser cortado. O ideal do capital é a classe trabalhadora inteira na informalidade”.

Neste sentido, entende que o isolamento promovido por conta da pandemia representa uma oportunidade para que o capital avance nesse projeto. Segundo sua análise, as experiências de home office individualizam e invisibilizam ainda mais o trabalho.

“As pesquisas que estão saindo agora estão mostrando que as empresas estão reduzindo o pagamento para esses trabalhadores, sem nenhuma explicação”, complementou.

Alternativa

Ao contrário do que se prega, Antunes entende que, do ponto de vista técnico, nunca houve tantas oportunidades de regulação do trabalho.

“Nunca foi tão fácil regularizar, está tudo no algoritmo. A questão é o Judiciário dizer: ‘Mostra para gente’. Quem controla o algoritmo? Eu posso controlar para fazer uma entrega rápida e sem segurança, ou posso fazer de outra forma, respeitando ritmo de trabalho. Há aparência de que a técnica comanda tudo, mas não é assim”, afirma.

A precarização crescente, de acordo com Antunes, tem uma dupla dimensão: de desafio e oportunidade.

“Se, por exemplo, a CUT não conseguir ter uma base nessa nova classe trabalhadora, ela vai perder sua força. Uma coisa que os sindicatos vão ter que aprender a fazer é aprender com os movimentos sociais, que estão acostumados a organizar os desorganizados”, finalizou.