Beto Nascimento é o pseudônimo de um bancário que não pode se identificar por receio de retaliações. Neste artigo, ele faz um desabafo: os bancários estão cada vez mais angustiados com a rotina de trabalho nas agências sempre lotadas. E como se não bastasse, o medo passou a rondar os locais de trabalho por conta do Covid-19.

Home office, VPN, reestruturação, redução da taxa de juros, pausa no pagamento de dívidas, campanha de vacinação, bônus Caixa, Saque FGTS, e mais uma série dessas e outras notícias se espalham pelo cotidiano dos bancários. Esse é o clipping diário das informações que passam pelos olhos acelerados dos empregados da Caixa e que, como sempre, quase nunca temos tempo para refletir e verificar que tipo de música nossa vida profissional está tocando.

Essas são as notícias públicas, tudo parte de uma curadoria de conteúdo que a alta gestão entende que o empregado deveria saber. E o outro lado? O que não é noticiado, são os empregados cada vez mais angustiados com a rotina de trabalho nas agências, cada vez mais lotadas; o medo é constante: atendimento ao grupo de risco, horários diferenciados para a população e o empregado à deriva. O empregado Caixa seria imune ao Covid-19? Às vezes parece que sim. O gerente geral das agências foi orientado a trabalhar na escala “70/30”, com rodízio da equipe; mas, alguns grupos de desabafos contidos versam o contrário, talvez a escala 100% esteja funcionando.

A solução de todos os problemas foi o home office. Mas, não é novidade que os empregados em home office extrapolam suas jornadas, trabalhando cerca de 14h horas diárias, começando a atividades pelo incansável WhatsApp a partir das 7h da manhã e fins de semana. Saibam vocês que isso é assédio. Incrível, mesmo com todo o cenário que vivemos, o nível de cobrança de metas focadas em negócios e não no lado social da Caixa, que muitas superintendências vêm adotando. 

Precisamos sim fazer uma corrente do bem, de apoio, de auxílio aos empregados das agências, fortalecer o coro e fazer uma só voz para serem respeitados. Os dias de luta não podem ser abafados, não podemos esquecer que dentro da nossa própria empresa, existe o “coronacapitalismo”. A reestruturação que não acabou, os processos seletivos nada meritocráticos e nenhum pouco transparentes, um “score” de pontuação inalcançável.

Nós vamos divulgar o que acontece nas agências, as filas, os contatos diários sem prevenção, a ausência de revezamento; são essas notícias que precisam chegar na alta gestão, para que, pressionados, envergonhados, adotem mais medidas que prezem a saúde e qualidade no trabalho de todos, não somente dos empregados da matriz. Afinal, sejamos honestos: a maioria de nós tem uma pulga atrás da orelha sobre o que a atual gestão tem mesmo vontade de fazer, se tivesse condições para isso. Eu arrisco proclamar, sem medo de errar: perda total de direitos!

Afinal o atual discurso bonitinho, mas ordinário, não escapa a um primeiro teste básico: o que dizer do tal banco da inclusão que para a Caixa, até onde vi, somente inclui os PCD’s e alinhados ideologicamente e que está exigindo que estes tenham que trabalhar fisicamente nas agências? E a quem a atual gestão acha que engana o discurso vazio de meritocracia? Não é difícil colegas se perguntarem: será que ainda existe um critério institucional da empresa para seleção de pessoas? Afinal, não são raros os casos de seleções bizarras como os tais revalidas, as seleções suspensas sem motivo algum, as designações para cargos da alta gestão que até a imprensa sabe quem vai levar. Sem contar os inúmeros colegas que são afastados de seus cargos sem motivo algum? . Para que vale o GDP mesmo? 

Por fim, aqui vale um mea culpa: nós bancários precisamos aprender a ouvir o outro lado da história, saber quais são os nossos direitos, lutarmos para sermos respeitados, não nos rendermos ao medo e perder a capacidade de nos indignar. Afinal, a nossa vida não é um Samba de uma nota só.