Em uma reunião com ministros do Tribunal de Contas da União (TCU), o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, relatou a possibilidade, através de uma projeção internacional, de um cenário muito mais negativo do que o formalmente apresentado pela instituição.

A última projeção divulgada pelo BC, no Relatório Trimestral de Inflação apresentado em 26 de março, ainda se apontava um cenário de estabilidade. Segundo Campos Neto, as perdas na bolsa, no mercado de crédito e no mercado de títulos públicos resultarão em um contexto “altamente recessivo”.

Marcada para que o presidente do BC explicasse o conteúdo da Medida Provisória 930 – que isenta integrantes do Banco por decisões e ações tomadas durante a crise – a reunião se baseou em um levantamento da The Economist Intelligence Unit, que aponta para 2020 uma queda de 5,5% no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. O conteúdo da conversa foi revelado pelo Valor Econômico.

“É uma previsão bastante negativa; não temos esse número, mas achei
importante compartilhar”, teria afirmado Campos Neto aos ministros.

No documento da The Economist, entre os países citados o Brasil é o que terá o pior desempenho. Antes da crise da pandemia, o órgão britânico previa crescimento de 2,4% para o Brasil. Com a queda de 5,5%, o tombo do Brasil teria um acúmulo de 7,9%.

Campos Neto apontou que, inicialmente, os efeitos econômicos da pandemia foram subestimados, imaginando-se que ocorreria uma crise de oferta, ou seja, na produção de bens e serviços. Hoje, já se percebe que os impactos na demanda também serão profundos.

O presidente do BC também destacou que, nesta conjuntura, não se pode esperar investimentos estrangeiros volumosos no país.

Projeção do Itaú

O Itaú Asset também rebaixou suas projeções, apontando recessão de -3,3%. A última estimativa era de retração de 0,3%. A instituição prevê taxa básica de juros de 1,5% ao ano, ao final de 2020, com inflação de 2,0% e dólar a R$ 4,85.

O cenário cada vez mais palpável de grande recessão gera, por outro lado, tentativas de mensurar os efeitos políticos de tal contexto. Tradicionalmente, resultados recessivos são fatores de forte instabilidade governamental. No caso atual, entretanto, a própria questão sanitária pode interferir nesses efeitos usuais.

“No Brasil, os últimos presidentes que, no curso do mandato, vivenciaram quedas do PIB próximas de 4% – Collor e Dilma – sofreram impeachment. É verdade que não passaram por uma pandemia. Mas o desgaste da inoperância do governo será cobrado de qualquer modo”, pondera o economista Sérgio Mendonça.

Recentemente, as iniciativas apresentadas, ou a falta delas, e a demora do Planalto em torná-las efetivas tem gerado desgastes do governo federal junto ao Congresso Nacional e aos governadores.