Roberto Alvim colocou em rede nacional um discurso baseado em propaganda nazista. Discurso e semiótica foram identificados, mas e o viés do concurso proposto?

Por Thais de Santis Rocha – mestre em História Social pela USP, com ênfase em História da Alemanha nazista.

Na quinta-feira (16), o até então secretário da Cultura, Roberto Alvim, proferiu um discurso sobre o lançamento de um prêmio nacional de cultura e que causou impacto devido à sua aproximação com Goebbels, o chefe da propaganda da Alemanha nazista.

Semiótica

A inconfundível estética nazista.

O cenário é simples, contendo a imagem do presidente atual ao fundo, uma bandeira nacional ao lado esquerdo da imagem e uma cruz, assim como o ministro da propaganda nazista há quase 80 anos.

As poucas cores presentes no Gabinete relembram, em si, uma proposta de retomada do clássico e estético digno da propaganda nazista: deixou as informações mais importantes como mensagem (bandeira, líder e cruz) e cores subliminares a quem for ver, na qual a imagem do meu líder está acima de si, juntamente com a proposta ufanista de uma nação cristã.

Essa apresentação, com poucos livros do lado direito, também mostra a intenção em se diminuir a importância apenas a uma versão de direita (sempre livros estão presentes quando se quer remeter ao conhecimento).

O vídeo se divide visualmente em duas partes e, na segunda, depois de falar dos interesses mesquinhos particulares, se associa e foca na imagem dele – o ministro, como a proposta de cinema alemão, de se focar na pessoa e se tirar qualquer forma de se desviar a atenção.

Sua fala incisiva, com a testa franzida e claramente traços de raiva, estão aliados aos discursos feitos em Nuremberg por Hitler, cujo conteúdo está associado com a reconstrução de uma nação destruída, com base em um renascimento de uma cultura triunfante de elementos nacionais, mas que vão privilegiar o contexto europeu e estadounidense em detrimento da cultura brasileira.

A postura também evidencia suas intenções. A escolha de um terno – nos tons cinza e gravata preta – remete à proposta de uma neutralidade quanto à sua presença e composição na imagem, mostrando-o como alguém supostamente sério. Ele mantém a cabeça levemente inclinada para frente e apresenta o mesmo tom de voz, tentando enfatizar sua relação com o poder e tentativa de legitimação do seu discurso.

Discurso

Agora, como já exposto em muitos tipos de mídia, vamos a uma análise simples do discurso, ressaltando as principais frases. Em um primeiro momento, destacamos “Ele pediu que eu faça uma cultura que não destrua, mas que salve a nossa juventude.”

Se nos debruçarmos sobre as campanhas de época nazista, assim como na Itália, a proposta de você formar os jovens e salvá-los está associada com a ideia de que isso tornaria o país mais moralizado.

A associação entre cultura e pátria, que vem logo a seguir, foi uma criação do século XIX feita para justificar a importância das novas nações, sobretudo Itália e Alemanha, e que foi retomada pelos regimes totalitários como forma de justificar, através de uma tradição inventada, sua importância, como assina Eric Hobsbawn em seu famoso artigo “A invenção das tradições”.

A tentativa de uma dialética entre a dinâmica com os mitos fundadores está novamente associada a um discurso totalmente enviesado e no qual o diferente não tem espaço.
Os pilares- Deus, família e pátria- já fazem parte de uma retórica da direita que surgiu no impeachment da Dilma e que a todo momento os políticos atuais repetem, como uma forma de legitimar o que propõe: um controle ideológico e moral sobre o campo da arte, limitando e censurando quem não pactua com suas ideias.

A escolha de palavras como virtude, fé, autossacrificio e luta contra o mal já foi usada por um austríaco – que virou líder alemão há alguns anos – e que ninguém gosta de ser associado. Isso mesmo, Hitler. A expressão “território sagrado das obras de arte” também está diretamente relacionada com a proposta do retorno do belo e das artes antigas que eram melhores, assim como você já imaginou que Hitler já tenha feito.

Incomoda escutar a ideia de elevação de uma nação e de um povo, presente em um cartaz famoso no qual em tradução livre do alemão fica “um povo, um governo, um líder”(Ein Volk, Ein Reich, Ein Führer).

Novamente um discurso com cara de século XIX, no qual se despreza o individual e se propõe a ideia de coletividade, anulando a liberdade de expressão, ou, como Alvim mesmo diz “mesquinhos interesses particulares”.

O discurso negacionista se reforça a partir do momento no qual se propõe uma arte heroica e nacional, imperativa e vinculada às aspirações do nosso povo, ou então não será nada.

Intelectuais

A proposta de um discurso, no qual se intima e se faz ataques diretos a outras formas de pensar que não sejam a sua para os que escutam, pode soar como uma forma de, novamente, moralizar e tentar melhorar o País. Mas para quem entende mais dessa área e busca conhecimento, trata-se de uma perseguição e controle sobre as formas de se expressar, contrariando o princípio de liberdade de expressão presente naquele documento chamado constituição e que os governos totalitários faziam questão de ignorar.

A utilização da expressão “as incongruências com um sistema de liberdade vêm com a tentativa de poderosas formas estéticas, criadas a partir de uma tentativa de novos intelectuais” mostra claramente uma tentativa de se preparar e fazer novos intelectuais. 

Se pegarmos quem são os novos intelectuais associados a esse governo, teremos muitos que negam tudo e, com isso, justificam que o não saber é mais importante para a cultura que o saber demais, pois isso provoca muitos problemas.  

Notemos ainda  a evolução dos termos: primeiro usa Pátria, depois povo até chegar a civilização. As civilizações são tidas como momentos importantes da história, e os nazistas se aproveitaram desse discurso patriótico como forma de se esquecer o que tinha se passado antes e como forma de se dignificar.

Caberia a esses novos intelectuais reescreverem uma nova estética ou apenas obedecerem ao que o governo manda, como foi o futurismo russo?

Estratégia nazista

A quem acompanhou o pronunciamento, e teve paciência, notamos um ponto da estratégia de propaganda atual, baseada na estratégia nazista de se repetir muitas vezes os mesmos termos como forma de reforçar isso e que nada mais importa além dessas palavras.

E sim, para quem ainda não entendeu, a proposta de se mostrar uma tentativa de ser nacionalista – e a campanha como um todo – não quer saber sobre as possíveis capacitações das pessoas, mas apenas alienar os que estão lá.

Tente pensar no que seria a cultura brasileira nacionalista que eles propõem: não é a da semana de 22 nem a Tropicália. A falácia se constrói na proposta de que não teria espaço nem voz quem são os artistas, sobretudo os periféricos.

O secretário se esqueceu de um preceito básico: a cultura é o reflexo sobre como as pessoas vivem e um ato político em si. Quando se propõe que haja um controle sobre a sua criação, se acaba com a fluidez da cultura.

Podemos lembrar, por exemplo, da exposição de arte degenerada, na qual artistas europeus e que romperam com a ideia de belas artes, como Paul Klee,  foram associados com a proposta de pinturas feitas por pessoas com problemas mentais e sobre como o novo era algo muito ruim, como expressou o próprio Hitler em um discurso em que apenas o belo seria arte.

Cultura

AAlemanha nazista tentou acabar com a arte feita até então.
 Goebbels observa a “arte degenerada”.

Para deixar mais bizarro, analisemos o que é considerado como cultura de acordo com as categorias: ópera, teatro, pintura, escultura, literatura (contos), música e histórias em quadrinhos.

A divisão por região faz parecer que seria algo separado, embora saibamos que existem regiões nas quais há maior concentração de artistas e pontos onde pode ser exibido isso.  Com isso, se propõe uma formação de público para um tipo de arte elitizada, voltada para poucos.

Nesses conceitos, são poucos os artistas que conseguem se relacionar com a proposta de cultura europeia branca dos primórdios do século XX. Quantos desses tipos de cultura oferecem um acesso para o público em geral e quantos são apenas nichos que poucos frequentam, seja pela distância do lugar de exibição ou pelo preço?

A proposta, então, dessa cultura, se faz a partir de locais fechados e que podem ter um maior controle quanto a quem pode ou não estar ali. A cultura, portanto, estaria mais pautada nos ideais das elites que na cultura popular.

O gosto amargo do passado

O regime nazista se dedicou a perseguir a arte e tentar construir um presente apagando o passado Alemão.
O regime nazista se dedicou a perseguir a arte e tentar construir um presente apagando o passado Alemão.

Tudo o que exportamos atualmente, como o funk ou o grafite, deixa de ter importância para ser uma estratégia do governo sobre o controle da moral e de como isso pode ser reverberado para o mundo.

Esse já era um processo paulatino, como a censura a várias exposições, peças e filmes. A proposta de um apagamento da memória do que foi a esquerda e a retomada de um discurso, no qual o indivíduo tem de cercear o que faz para respeitarem a uma falsa moral cristã, causada pelo medo de punição divino, que ataca diretamente aos que sofrem com o cerceamento – muitas vezes dos poucos momentos de entretenimento, mostram a última face da estética nazista que analiso aqui: a ruína.

Se você faz uma nova cultura e um novo país, no qual se nega tudo o que havia anteriormente, você precisa contar com a ideia de que ela seja estanque.

Como ela é resultado de um processo de criação e que envolve pessoas aliadas a uma política, Alvim tenta mostrar que o problema da cultura brasileira estar assim é dos opositores, no caso específico o PT. A proposta de atribuição de tudo ruim a um determinado grupo também aconteceu na Alemanha nazista, e bem, sabemos o resultado e esperamos que ele não se repita.