Desaceleração, cenários políticos complexos e aumento das demandas sociais são o pano de fundo para o balanço econômico de 2019 realizado pela CEPAL.

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) lançou em dezembro de 2019 um balanço econômico sobre os países do continente americano, com exceção de Canadá e Estados Unidos.

Segundo o documento, houve uma desaceleração econômica generalizada e sincronizada nos países da região. No primeiro semestre de 2019, das 20 economias analisadas, 18 tiveram desaceleração. Isso se refletiu no Produto Interno Bruto (PIB) dos países, que somaram um crescimento de apenas 1,34% para o ‘continente’.

Nem todos os setores econômicos se comportaram da mesma forma nos 20 países. Porém, algumas tendências puderam ser observadas. A indústria da mineração, cujo decréscimo já remontava a anos anteriores, somou-se à manufatura, que compreende construção e comércio.

O segundo semestre de 2019

O segundo semestre do ano passado teve crescimento negativo na América do Sul, -0,26%. Já as economias da América Central e México obtiveram um pequeno crescimento, 0,6%.

A CEPAL destacou que no Brasil, a atividade econômica evoluiu mais do que o esperado. Porém, o pequeno crescimento de 1% não foi suficiente para aumentar o nível de consumo, que se manteve baixo.

Ainda no Brasil, houve destaque para a aprovação da Reforma da Previdência. Para os pesquisadores, as reformas não serão suficientes para impulsionar o crescimento em longo prazo.

As grandes manifestações pelas lentes da CEPAL

O último trimestre de 2019 contou com grandes protestos por demandas sociais e econômicas em alguns países das Américas. Os ventos de indignação sopraram principalmente nos países do Sul do continente.

Os protestos afetarm a trajetória econômica dos países no quarto trimeste, assim como o balanço feito pela CEPAL apontou. Mesmo assim, a instituição considera urgente a edificação do bem-estar social nos estados da região. Direitos, sistemas universais de saúde e educação são necessários para impulsionar a igualdade, uma necessidade segundo a instituição.

As causas apontadas pela CEPAL

A comissão afirma que a estagnação do PIB da região se explica principalmente pela significativa redução da demanda interna dos países. O panorama macroeconômico mostra que o período de 2014-2020 será o de menor crescimento para as economias latino-americanas nos últimos 70 anos.

A queda no consumo, público e privado, são consequências do ajuste fiscal implementado nos países, segundo a Comissão. Isso gerou um decréscimo de demanda interna, que prejudicou os setores produtivos dos países.

As consequências para a região

O PIB per capita diminuiu, assim como o consumo per capita. Houve perda da qualidade do emprego e os investimentos governamentais minguaram. Essas são as tendências que provavelmente se manterão em 2020 na região.

Outra projeção para este ano é o crescimento econômico de apenas 1% para os países da América Latina. O desafio é a manutenção das políticas econômicas que incluam o âmbito social com esse crescimento baixíssimo.

A preservação dos avanços na macroeconomia e no pagamento da dívida externa dos países, ocorridos entre meados dos anos 2000 e meados da década de 10 desse século, são uma necessidade, afirma a CEPAL no relatório. Ambos fatores concorrem para estabilização econômica da região.

Já o futuro do mercado de trabalho na região passa pela uberização. Se em 2019 a taxa de desocupação diminuiu levemente, não foi por causa do aumento do emprego. O número de pessoas empreendendo por necessidade e trabalhando para plataformas de internet em condições precárias, explodiu. E, para os próximos anos não há previsão de mudança nesse cenário.

Nos idos de 1984, durante o período de sanguinárias ditaduras na América Latina, Caetano Veloso se perguntou:

“Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?”

Resta saber se após os ridículos tiranos, a América quase evangélica conseguirá superar a tirania do liberalismo econômico.