64% dos consumidores brasileiros estão em situação de inadimplência e, segundo estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), parte da culpa é da publicidade.

Inadimplência tem relação com abusos na publicidade.

A publicidade abusiva, segundo o Idec, pode ser um dos principais fatores que levaram ao endividamento das famílias e à inadimplência. O estudo foi realizado entre julho e agosto de 2019. Contou com a análise de 125 peças publicitárias divulgadas por 31 instituições de crédito. Os anúncios analisados são bancos grandes, bancos pequenos, financeiras, correspondentes bancários e fintechs.

As linhas de crédito pesquisadas foram as que as famílias brasileiras mais utilizam: cartão de crédito, crédito pessoal, crédito consignado, crédito para negativados e crédito para renegociar dívidas. A coleta dos materiais ocorreu na cidade de São Paulo e nos meios digitais.

Como determinar se a publicidade é abusiva?

Para se certificar que a publicidade passou dos limites, o material coletado foi analizado à luz da legislação vigente. Foram 43 panfletos e fotos obtidas nas instituições, além de 82 anúncios de crédito veiculados nos sites das instituições e em aplicativos de internet.

O Código de Defesa do Consumidor e os normativos de autorregulação bancária, disciplinam até que ponto os bancos podem chegar para ofertar seus produtos. Por isso, foi possível observar que vários dos anúncios ultrapassavam as barreiras da lei.

Foram encontrados no estudo: a ausência do custo efetivo total, a venda casada de seguros premiados, portabilidade de crédito descaracterizada como troca com troco, omissão de informações relevantes e condições de oferta indicadas por asteriscos e uso de letras miúdas, entre outras.

Facilidade e felicidade associadas ao crédito rápido

O Idec afirma em seu estudo que as peças publicitárias exploram o imediatismo. Aliado a isso, a utilização da imagem de pessoas famosas emprestam credibilidade aos produtos.

O aumento da relação Crédito/PIB dobrou de 24% em maio de 2004, para 47,2% em maio de 2019. Nesses 15 anos, a maior facilidade de acesso ao crédito junto a promessa de realização de sonhos por meio do consumo, não tiveram como contrapartida a educação financeira.

Isso acarretou o endividamento, com consumidores contraindo crédito sem avaliar os riscos. Isso acarretou uma “ciranda de uso recorrente de crédito para pagar outros créditos, levando assim muitas famílias ao superendividamento”.

Indimplência é preocupação internacional

Como resultado do estudo, que foi divulgado às instituições, há propostas de que não haja mais o uso das letras miúdas. Inclusive com uma campanha, a #AsteriscoNão. Cujo conteúdo deverá se debruçar à “educação financeira, treinamento e disponibilização de aplicativos para gestão financeira”.

Isso ‘casou’ perfeitamente com o objetivo do estudo, que, segundo a economista do Idec, Ione Amorim, “foi avaliar como as mensagens publicitárias sobre a contratação de crédito influenciam as decisões dos consumidores, muitas vezes com informações insuficientes ou enganosas, despertando o impulso do consumidor e desconsiderando riscos e contribuindo para o aumento do superendividamento”.

A inadimplência é causa de intenso sofrimento psíquico, além de gerar impactos na economia. Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva, em conjunto com a plataforma de cobrança digital Negocia Fácil, a depressão, baixa autoestima, a insônia e o baixo rendimento profissional podem colocar o devedor em situação ainda mais difícil.