Em vez da China, dessa vez o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, resolveu atacar o Brasil e a Argentina – em especial, as exportações do aço e alumínio desses dois países.

O Instituto Aço Brasil, que representa as siderúrgicas no País, recebeu  com “perplexidade” a decisão anunciada hoje por Trump, sob o argumento de que Brasil e Argentina têm liderado uma desvalorização maciça de suas moedas, e que isso não é bom para os agricultores dos EUA.

“Tal decisão acaba por prejudicar a própria indústria produtora de aço americana, que necessita dos semiacabados exportados pelo Brasil para poder operar as suas usinas”, informou em nota o Instituto Aço Brasil.

Já a Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) informou que desde 1º de junho de 2018, as exportações de produtos de alumínio brasileiro aos Estados Unidos pagam sobretaxa. 

“Esse acerto foi ratificado no ano passado com governo Trump, quando este abriu a possibilidade de substituir a sobretaxa por cotas limitadas de exportação. Na época, optamos pela sobretaxa e seguimos assim desde então”.

 A manifestação do presidente norte-americano pelo Twitter, na manhã desta segunda-feira (2), ocorre no momento em que o dólar atinge sua máxima.

Dólar x Carne

Se a desvalorização do real frente ao dólar não é boa para os agricultores norte-americanos – como argumenta Trump –  o que dizer para o consumidor brasileiro na hora da refeição? No mercado interno, a alta da dólar tem causado impacto nos produtos nacionais, como por exemplo, a carne.

Segundo o professor de MBAs da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Mauro Rochlin, as exportações de carne para o mercado chinês explicam a aumento do preço no mercado interno. 

“Olhando a balança comercial brasileira, que mostra nossas exportações, vamos verificar que nos últimos meses houve uma alta imensa das exportações de carne do Brasil para a China. Ou seja, parte da oferta local de carne do mercado foi desviada para o mercado chinês e, com menos oferta, a expectativa é que os preços subam”, disse.

Para ele, o governo tem muito pouco a fazer e, nesse caso, o tabelamento do preço da carne não seria uma boa medida. “No final das contas, acarretaria um desabastecimento de carne, caso o governo controlasse os preços. Isso faria com que o produtor desviasse toda a carne para o mercado externo. Portanto, a alternativa do produtor seria não vender aqui, uma vez que o preço estaria, no caso, tabelado. E sim vender para o exterior, quando o preço está tabelado”, disse.

O professor aponta o reflexo disso em outros produtos nacionais. “O que deve acontece é um desvio dessa demanda de carne do Brasil, para outro tipo de produto. Então, o brasileiro que procura a carne, vai encontra-lá mais cara, procurando alternativas, como a carne de frango, a carne suína ou outras proteínas vegetais. E havendo um aumento forte na demanda desses outros produtos, a gente vai imaginar que deve haver alta no preço desses outros produtos”, explica.

Dólar x Trigo

O Brasil é um grande consumidor de trigo importado, um dos maiores importadores de trigo do mundo. São consumidos 12.000.000 de toneladas por ano e importados 60% desse volume. Por conta disso e pelo trigo representar 75% do custo na produção de farinhas, seu custo está atrelado ao câmbio e às bolsas de commodities internacionais. Esse ano, o trigo subiu dois dígitos nas cotações internacionais além do impacto cambial com a desvalorização do real.

O setor de massas e panificação responde por cerca de 75% da produção de farinha de trigo, isso representa perto de 7 milhões de toneladas de farinha.

Segundo o Sindicato das Indústrias de Trigo dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo (Sinditrigo), o aumento no custo de matéria prima em reais para os moinhos chegou a 25% em 2019, com repasse limitado para os preços de farinha em 10%. 

A entidade espera aumento no consumo dos derivados do trigo com a maior estabilidade na economia, e que o Brasil consiga ter uma segurança jurídica mais equilibrada, pois “a falta de segurança jurídica espanta o investidor estrangeiro e pressiona o câmbio”.