Há exatos 19 anos, no dia 20 de novembro de 2000, o Banco do Estado de São Paulo (Banespa) foi vendido, em leilão na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, ao Santander.


O banco espanhol arrematou o brasileiro por pouco mais de R$ 7 bilhões. Na época, a Folha de S. Paulo noticiou ser o “maior valor em reais já pago em uma privatização no Brasil”.


A venda do banco público, feita no governo de Fernando Henrique Cardoso, afetou não só seus clientes, mas toda a população do estado, que perdeu fonte de investimentos em infraestrutura, habitação e serviços feitos por meio de linhas de financiamento do banco público.

Privatização não foi vitória da população


Ao contrário do que disse o secretário do Tesouro Nacional, Fábio Barbosa, a venda do Banespa não foi “uma vitória do contribuinte”.


O movimento dos funcionários do banco contra sua venda começou ainda em 1994, quando o Banespa sofreu intervenção do Banco Central a pedido do então governador Mario Covas. Antes de assumir o cargo, ele havia prometido manter o Banespa como instituição pública (qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência).


Depois de seis anos de mobilizações, o pacote privatista de FHC venceu a batalha. À época, o presidente do Banco Central era Armínio Fraga, nome conhecido na história brasileira por sua afinidade com a venda de empresas públicas.

6 anos de mobilização dos trabalhadores


É possível acompanhar parte dessa história em reportagens do arquivo da Folha de S. Paulo aqui. Entre batalhas judiciais, o governo adia o leilão do banco por diversas vezes. Unibanco e Bradesco também fizeram propostas, porém próximas do mínimo, e o Itaú desistiu.


O Banespa passou por um processo de enxugamento dos postos de trabalho antes de sua venda, entre 1992 e 1999, que resultou na eliminação de mais de 17 mil empregos. Em 2001, já após a venda, 8.300 funcionários aderiram a um Programa de Demissão Voluntária proposto pela nova diretoria do banco.


Novamente, qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência – nessa época, já se ouvia falar, por exemplo, na privatização do Banco do Brasil, como mostra reportagem do Portal Terra, de 20 de novembro de 2000.


A mesma reportagem mostra que Fraga comemora a privatização porque o banco não mais teria que manter sua atuação em benefício da sociedade. “Fraga explicou que o Banespa privatizado não terá de manter sua atuação em “políticas públicas”, como financiamento a pequenos agricultores, por exemplo. “A privatização deixa clara a separação entre o negócio privado e uma política pública”, disse.


Depois dos processos de enxugamento, os administradores do banco justificaram os desligamentos com a necessidade de adequação da estrutura. Em 2002, o Banespa atingiu o menor estoque de emprego da sua história, com 13.722 funcionários. No ano seguinte, o Santander iniciou novas contratações e fechou o ano de 2006 com 23.355 funcionários, superando o número que havia no ano da privatização, que era de 22.235.

Movimento vitorioso

Paulo Salvador, ex-dirigente sindical dos bancários de São Paulo, diz que a história do Banespa é “forte e peculiar”. Ele exalta o movimento dos trabalhadores do banco, que adiou sua venda por seis anos.

“Foi uma campanha vitoriosa, embora tenha sido privatizado no fim. O FHC teve que sujar a mão várias vezes pra privatizar o Banespa. E nós conseguimos envolver toda a sociedade de São Paulo que, a princípio, era a favor da privatização e mudou de opinião graças às nossas campanhas. Foi um exemplo de resistência”, disse.

19 anos depois, corre-se o risco de ver a história se repetindo. O velho fantasma da privatização dos bancos públicos ainda assombra a Caixa e o Banco do Brasil, embora tenham ficado fora do pacote de privatizações de Paulo Guedes. A história do Banespa ensina o valor de um patrimônio e a importância dessas instituições para a população.