No último dia 2, a capa do jornal Estadão estampava em letras garrafais o que se acredita ser mais uma prova do preconceito de Bolsonaro e sua equipe: apenas 2,2% dos empréstimos da Caixa Econômica foram para o Nordeste até julho deste ano.


Após chamar os nordestinos de “paraíbas”, termo pejorativo, o presidente da República justificou o baixo volume de recursos por conta de uma suposta inadimplência que, segundo ele, é maior dentre as prefeituras do Nordeste.

O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, amenizou as coisas dizendo que os empréstimos são “sazonais” e que novos recursos estavam sendo estudados para serem destinados à região. Os dois repetiram a mesma frase: “A Caixa precisa de garantias para poder emprestar”.

Dados do Cauc desmentem Bolsonaro

O UOL tem uma editoria chamada UOL Confere e consultou o banco de dados no Serviço Auxiliar de Informações para Transferências Voluntárias (Cauc), controlado pela Secretaria do Tesouro, para verificar se procedem as declarações de Jair Bolsonaro.

SPOILER: não procedem.


Segundo o veículo, não há diferenças regionais entre o Nordeste em comparação com a média nacional. “No caso específico de capitais e estados, também não há qualquer justificativa legal que impeça os repasses”, diz a reportagem.


A consulta foi feita na quarta-feira, 4, e apontou 4.247 municípios de todo o país “com o nome sujo”. Da lista dos cinco estados com mais municípios irregulares, só um é do Nordeste e quatro são do Norte.


Para conseguir acesso aos recursos da Caixa Econômica, prefeituras e governos estaduais precisam estar sem pendências no Cauc, que leva em conta itens como envio de prestação de contas, investimentos em saúde e educação, entre outros setores.


A reportagem do UOL também consultou a situação no Cauc dos estados e viu que apenas sete estão em dia com suas obrigações –dois deles são do Nordeste. Já entre as capitais, três das nove com nome limpo são nordestinas.

Nordeste bem na fita

Estados com mais municípios irregulares (em negrito o do Nordeste)
Amapá – 100%
Pará – 96,5%
Sergipe – 96%
Tocantins – 95,7%
Roraima – 93,3%

Estados regulares (em negrito os do Nordeste)
Ceará
Espírito Santo
Mato Grosso
Pará
Pernambuco
Rio Grande do Sul
Santa Catarina
São Paulo

Capitais regulares (em negrito as do Nordeste)
Rio Branco
Manaus
Vitória
Goiânia
São Luís
Belo Horizonte
Teresina
Porto Alegre
Aracaju
Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional (Consulta feita ao Cauc em 7/8/2019)

No dia em que o Estadão divulgou a diferença em relação aos recursos enviados para cada região, conversamos com Maria Fernanda Coelho, que presidiu a Caixa Econômica de 2006 a 2011 e ela se disse chocada com a informação.

“É muito grave o que está acontecendo. Em quase 30 anos de Caixa, nunca vi nada igual. E tem uma questão mais séria ainda: os investimentos em infraestrutura, notadamente em saneamento básico, têm relação direta com a saúde, especialmente das crianças”, afirmou.

Bate e afaga

Nesta quinta-feira, 8, Pedro Guimarães se reuniu com parlamentares do Nordeste para um café da manhã e prometeu a criação de um grupo de trabalho para acompanhar os empréstimos feitos à região.

Na última terça-feira, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal aprovou requerimento para que Guimarães explique as diretrizes para a concessão de empréstimos para estados e municípios do Nordeste. Até o fechamento desta reportagem, a audiência não tinha data para acontecer.