Na América Latina, a desigualdade econômica e social faz com que mulheres sejam as maiores vítimas. A estagnação econômica dos países de renda média e dependentes da exportação de matérias-primas, como o Brasil, estão aumentando a concentração de renda, a pobreza e a fome.

A fome aumenta no mundo e no Brasil os dados são alarmantes.

Segundo relatório da Organização das Nacões Unidas (ONU) divulgado ontem, 15, o número de famélicos no mundo aumentou. Organizações que compõem a ONU, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), alertam para o aumento do número de pessoas que não só passam fome, mas também de subnutridos e de pessoas com insegurança alimentar grave e moderada.

A erradicação da fome está mais longe

O segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) , que prevê fome zero até 2030 está mais distante de acontecer hoje do que estava em 2017. O número de pessoas passando fome aumentou de 811 milhões para 820 milhões.

Segundo Rafael Arantes, nutricionista do IDEC: “O relatório de 2019 da FAO sobre ‘O estado da Segurança Alimentar e Nutricional no mundo’ reacende uma luz de preocupação. A estagnação da diminuição e recente crescimento do número de pessoas que passam fome em algumas partes do mundo representa um cenário que reflete as desigualdades em termos de acesso à alimentos. A esse cenário, se soma uma outra camada de igual complexidade por conta do avanço do excesso de peso e obesidade em todas as regiões do globo. Apesar de diferentes fatores estarem relacionados com a falta ou excesso de alimentos, a causa raiz destes problemas é a mesma: Sistemas alimentares estruturados de tal forma que asseveram a fome, geram doenças e degradam os recursos naturais. O relatório de 2019, assim como vários outros sobre o tema, alertam para urgência na tomada de ações que alterem profundamente as estruturas e relações de produção e consumo de alimentos. A inércia de uma governança assertiva e comprometida traz riscos para além do não cumprimento de metas mundialmente pactuadas, mas de falhar em garantir condições dignas de existência para as gerações presentes e futuras. “

Aumento das desigualdades e da fome são diretamente proporcionais

Segundo relatório da Oxfam de 2018, o aumento da desigualdade de renda entre ricos e pobres está aumentando e tende a continuar. Cerca de 82% da riqueza foi parar nas mãos do 1% mais rico do planeta.

No ano de 2017, os bilionários aumentaram sua riqueza em 13% ao ano, em média. Se considerarmos 2010 como ano-base para a análise, isso significa que a fortuna dos bilionários aumentou seis vezes mais rápido do que os salários pagos a trabalhadores – estes tiveram aumento de apenas 2% por ano no mesmo período.

Mais da metade da população mundial vive com renda entre US$ 2 e US$ 10 por dia. Segundo critérios da ONU, pessoas que vivem com menos de US$ 2 por dia estão incluídas na linha da pobreza e são vítimas de insegurança alimentar e fome.

Números avassaladores

A Oxfam alerta que em 2017 cinco bilionários detiveram a mesma renda da metade mais pobre da população do país. A falta de investimento que deriva da estagnação econômica faz com que não haja geração de empregos. Isso aprofunda ainda mais o abismo social e empobrece a parte mais pobre da população.

A volta do Brasil ao Mapa da Fome é uma realidade que vêm sendo debatida por pesquisadores há pelo menos dois anos. Depois de um forte comprometimento do país na erradicação da fome, que tirou 82,1% da população da miséria entre 2002 e 2014, segundo ONU, o retrocesso é possível.

Dados claros sobre uma realidade complexa

Os números apurados pelos pesquisadores da ONU estão disponíveis no relatório online (em espanhol). São cifras gigantes que revelam um desafio global de erradicação da miséria e da fome na construção de um mundo melhor para todos.

  • Pessoas com fome no mundo em 2018: 821,6 milhões (1 em cada 9)
  • Na América Latina e Caribe: 42,5 milhões
  • Pessoas com insegurança alimentar moderada ou grave: 2 bilhões (26,4%)
  • Bebês com baixo peso ao nascer: 20,5 milhões (1 em cada 7)
  • Crianças menores de 5 anos afetadas por atraso no crescimento (baixa estatura para a idade): 148,9 milhões (21,9%)
  • Crianças menores de 5 anos afetadas por baixo peso para a estatura: 49,5 milhões (7,3%)

Fome no Brasil

A aprovação da PEC do Teto de Gastos (PEC 95/2016) diminuiu a verba que poderia ser disponibilizada para políticas públicas para a diminuição da miséria. Segundo dados da Oxfam, (Instituto de Estudos Socioeconômicos) Inesc e (Centro de Direitos Econômicos e Sociais)Cesr, a diminuição das verbas pode chegar a 83%. Isso dificultaria ainda mais o Brasil a atingir o fome zero até 2030.