A Caixa Cultural suspendeu a temporada de apresentações do espetáculo Abrazo, da Companhia Clowns de Shakespeare, que acontecia em Recife. De duas sessões marcadas para o último sábado, dia da estreia, somente uma foi encenada. A peça foi selecionada no edital até 15 de setembro.

Em nota publicada no Facebook, a companhia informa o cancelamento de Abrazo e diz que a decisão partiu da Caixa por suposta quebra contratual. Eles também dizem estarem procurando auxílio judicial para recorrer da decisão.

Em seu instagram, o diretor Marco França publicou um desabafo falando em censura. “Uma censura travestida com argumentos jurídicos. Vemos um momento de barbárie no país, onde a verba pública para pesquisa e educação são cortadas, livros são censurados, artistas estão sendo perseguidos e tendo suas obras censuradas. Não nos calarão”, afirma.   

View this post on Instagram

CENSURA !

A post shared by Marco França – Ator e Músico (@clownamado) on

No Instagram do espaço Caixa Cultural Recife, diversos usuários perguntam o porquê de o espetáculo ter sido cancelado. Até a publicação desta matéria, não havia resposta por parte da Caixa, que também foi procuradas por veículos da imprensa local e não se manifestou.

Sobre o espetáculo Abrazo

Abrazo é a segunda peça da Trilogia Latino Americana (composta ainda por Nuestra Senhora de Las Nuvens e Dois Amores y Um Bicho), um projeto de pesquisa do grupo que teve início há uma década e nasceu do desejo de investigar a história e a cultura dos países vizinhos ao Brasil, a partir da percepção da falta de diálogo entre as nossas culturas, fruto de uma construção eurocêntrica. Entre os pontos em comum das histórias dessas nações estão os sucessivos episódios de golpes de estado, como as ditaduras militares instauradas no século 20.

Sem falas, o espetáculo dirigido por Marco França foi livremente inspirado em O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano, e tem roteiro dramatúrgico assinado por César Ferrario. No elenco estão Camille Carvalho, Dudu Galvão e Paula Queiroz, que se revezam em vários personagens. No trabalho, a música exerce uma função de destaque, diretamente ligada à ação.

Segundo Fernando Yamamoto, um dos fundadores do Clowns de Shakespeare, a obra tem como base o desejo de trabalhar com as crianças temas como repressão, relações de poder e o histórico de ditaduras da América Latina. Para ele, os espetáculos ganharam uma potência ainda maior após 2016, dialogando diretamente com o Brasil do presente.

Trecho do Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano